terça-feira, 3 de novembro de 2009

O Setor Têxtil, IOF e o Dólar

Nossa cidade, como todos sabem, é referência quando o assunto é desenvolvimento, fabricação ou comercialização de tecidos e peças para o vestuário. Brusque recebeu o top of mind de 2009, como cidade mais lembrada no segmento "cidade têxtil". Esse prêmio reforça a tradição da cidade e também sua dependência em relação aos produtos têxteis. Vejamos como anda o setor.

Santa Catarina, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção – ABIT foi o único estado a apresentar crescimento nas vendas da categoria tecidos, vestuários e calçados, no acumulado até julho de 2009, com 2,01% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em comparação a média brasileira foi uma queda de 6,18%. Por outro lado, a produção têxtil em Santa Catarina apresentou variação negativa de 7,28%, enquanto no Brasil a queda foi de 10,41%. A queda da produção é explicada pela aversão ao risco dos empresários do setor devido à crise. No entanto, como o comércio foi muito aquecido por estímulos do Governo Federal, já é possível observar a retomada da produção de vários itens.

O volume de entrada e saída de dólares, referente às exportações e importações de têxteis, também ajuda a entender a dinâmica do setor. O volume exportado em dólares, no período de janeiro a setembro de 2009 acumulou US$1,29 bilhões contra US$1,72 bilhões do mesmo período de 2008, queda de 24,70%. O maior comprador dos produtos têxteis brasileiros no período foi a Argentina e em segundo lugar os Estados Unidos. As importações somaram US$2,48 bilhões no período contra US$2,92 bilhões do período anterior, uma queda de 17,74%. A China, ainda incomoda com seus produtos têxteis competitivos, de lá vieram 39% das importações no período analisado. A balança comercial (diferença entre exportações e importações) negativa do setor se deve ao câmbio valorizado no Brasil e, sobretudo a crise que afetou os compradores no exterior.

Entretanto, a recente iniciativa do Banco Central do Brasil de aumentar o IOF para investimentos estrangeiros especulativos, traz alguma esperança aos exportadores. O real em tese se desvaloriza com essa medida, e os preços de produtos brasileiros se tornam mais competitivos no exterior. No entanto, ainda temos taxas de juros altas e o investidor estrangeiro sem muitas opções disponíveis considera muito atraente aplicar no Brasil, mesmo com a tributação.

Os Estados Unidos, um importante parceiro comercial dos têxteis brasileiros e do mundo, apresenta sinais de recuperação com crescimento do PIB. A economia norte-americana cresceu a uma taxa anualizada de 3,5% no terceiro trimestre de 2009. Ainda é cedo para dizer se eles irão aquecer a economia mundial com seu crescimento. Das variáveis do PIB americano que apresentaram crescimento estão o consumo das famílias, os investimentos em estoques e o investimento em construção civil. Contudo, dos três componentes listados acima, dois foram alvos de programas de estímulo do governo, o que deixa a dúvida no ar: como será o comportamento da economia após o fim dessas políticas? Nós dependemos e muito da recuperação americana.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Por que compramos o que compramos?

    

Há um ramo das ciências econômicas ganhando força no meio acadêmico, as Finanças Comportamentais. Um estudo que me chamou a atenção foi um artigo do economista americano Richar H. Thaler, intitulado Mental Accounting Matters ou em uma tradução direta – Questões sobre a Contabilidade Mental. Thaler é considerado um dos maiores estudiosos do assunto no momento.

Sua pesquisa nos faz entender o que leva um consumidor a comprar determinado bem ou serviço, como os indivíduos investem seu dinheiro e como a mente processa as escolhas entre valores gastos e recebidos. Por esse motivo, o artigo é uma alusão à contabilidade devido ao balanço mental entre débitos e créditos de valores que fazemos. Thaler quer comprovar se o indivíduo é racional ao fazer suas escolhas. A teoria da racionalidade das escolhas foi defendida por muito tempo na economia e com esse estudo veremos que nem sempre ela existe.

O que acontece quando o consumidor decide comprar algo? Ele provavelmente, em sua mente, irá relacionar a troca de dinheiro pelo produto. Irá "codificar" na sua mente a compra do produto como ganho, e a saída do dinheiro não será analisada como prejuízo. Faz isso para defender a compra do bem. Ele precisa indicar para a sua mente que o produto é mais valioso que o dinheiro, caso contrário não compraria.

Suponha que você comprou um par de sapatos. Na loja ele parecia confortável. No primeiro dia de uso ele te machuca. No segundo dia, você tenta e novamente ele machuca. Pelo estudo da contabilidade mental, quanto maior o valor pago pelo sapato, maiores serão as suas tentativas de uso. Eventualmente você poderá parar de usar o sapato, mas não o jogará fora. Quanto maior o valor pago pelo sapato, mais tempo ele ficará no seu closet. Essa atitude parece racional uma vez que o sapato está lhe fazendo mal? Não! Mas sabemos que na prática agimos assim.

Um indivíduo vai ao jogo de futebol e descobre que perdeu o ingresso no valor de R$20,00. Muitos nessa situação ficariam na dúvida se comprariam ou não outro ingresso. Se por outro lado, ao ir ao estádio, o mesmo indivíduo perde R$20,00 da sua carteira, isso não o impedirá de comprar os ingressos. Ou seja, o cérebro processa decisões financeiras de forma diferente. Veja que no exemplo do ingresso o prejuízo nos dois casos foi de R$20,00.

Quantas pessoas você já conheceu que não tira o dinheiro da poupança ou de outro investimento e usa o limite do cheque especial? Ou aquele cidadão que recebe a restituição do imposto de renda e enxerga um ganho extra que poderá ser utilizado numa viagem? O racional seria pagar o cheque especial (juros mais altos) com o dinheiro da poupança e seria considerar a restituição o Imposto de Renda como parte do patrimônio e não como um "prêmio".

O cérebro possui compartimentos para cada decisão. Você sai para comprar sapatos (decisão 1) e como o preço está menor acaba levando dois pares (decisão 2). Pense bem! Racionalmente você só precisa de um, mas acaba com mais. Você está sendo vítima da sua contabilidade mental.